quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A bagunça


Capitulo 1:
                             
Wendy dormia como se tivesse perdido varias noites de sono. Suas pálpebras estavam pesadas. A noite anterior havia sido a mais longa de toda a sua vida. Havia saído para beber com alguns amigos e acabara fazendo coisas que nunca se imaginou fazendo. Seria o efeito da bebida? Mas o que havia bebido? Não importava á ela. Teria sido a sua primeira noite longe de seu computador velho, de seus livros românticos, de sua cama e de sua cachorrinha, Lola. Wendy era muito caseira, e quando fazia estes tipos de loucura, na maioria das vezes era culpa de Julie, sua melhor amiga.
Seus cabelos ondulados, ainda estavam molhados, encharcando o travesseiro de água. Havia pegado uma enorme quantidade de chuva e, quando acordasse, teria um bom índice de chances de ela se revoltar.

- Wendy? Wendy acorde! Sua amiga está te esperando lá em baixo. – A voz de sua mãe soava preocupada, enquanto á apalpava a fim de acordá-la.

- O que...? Mas que horas são, mãe? – Perguntou Wendy com os olhos marejados.

- Se eu disser você irá se assustar. Ah, e um aviso para a mocinha: está atrasada! – Respondeu a mãe abrindo as janelas do quarto escuro.

- Oh não! - Assustou-se, levantando rapidamente da cama. – Mãe porque não me chamou? Agora vou ter que ouvir as broncas da professora Mara.

- Desculpa filha! Achei que você tinha colocado o celular para despertar – disse a mãe – E quem mandou à senhorita ir dormir tarde?

- O que? Dormir tarde? Eu não fui dormir tarde mãe. Ás 10, já estava na cama. – Wendy tentou enganar a mãe, tirando a roupa molhada rapidamente, porém não conseguiu.

- Está tentando me enganar mocinha? Eu bem vi o horário que você chegou aqui em casa... – Disse a mãe enxugando o cabelo da moça.

- Mãe, por favor! Não começa.

- Não começa você... Estou tentando te ajudar. – Pigarreou a mãe. – E outra... A senhorita não deve sair durante a semana, pois você sabe muito bem, que terá aula todos os dias e tem que descansar.

  Wendy se sentia protegida quando a mãe a alertava dos perigos “das noites na rua”. Afinal, ela era sua mãe. Por quem tinha um respeito fora do normal. Talvez fosse por conta da ausência do pai, que aparecia somente em caso da filha precisar de dinheiro. E mesmo assim, ele reclamava. Como se a obrigação de Rebecca, mãe de Wendy, fosse bancar tudo em relação á filha. O que ele se esquecia, em todo o momento, era de que a filha também fazia parte dele, também era dele. Ela não suportava ver sua mãe chorando todas as noites por conta dele. Ele havia á abandonado á alguns anos atrás e desde então, Wendy e Rebecca tem sido a melhor amiga uma da outra. Rebecca era uma mulata bonita, com os olhos cor de mel e o cabelo longo e preto como o de uma índia. Gostava de andar com vestidos leves durante o dia, e mantinha os cabelos sempre presos á um coque. Os soltava apenas em eventos especiais e festas, o que deixava Wendy revoltada, pois sempre pedia á sua mãe para que soltasse o cabelo, na qual era tão lindo. Durante a noite, quando dava exatamente sete horas, tomava um banho na banheira de seu quarto, colocando o sabonete de sempre com essência de baunilha na água, vestia um roupão branco acompanhado por pantufas e preparava o jantar ao som da televisão, enquanto Wendy arrumava a casa. 

- Oh não! Ela deve estar á tempos me esperando... Então se quer me ajudar, peça para Julie subir aqui, pode ser? Ela não vai ficar esperando a vida inteira no sofá. – Disse Wendy penteando o cabelo.

 Julie e Wendy eram amigas de infância. Saiam para vários lugares do tipo livraria, parque de diversões e lanchonetes. Sonho de toda a criança... Nos dias atuais saiam para shows de rock, shopping e de vez em quando, boates. Aquelas nas qual Wendy freqüentou na noite passada. Na maioria das vezes que se encontrava bêbada ou em situações de atraso em que estava, era culpa de Julie. Elas eram as “esquisitas do colégio”. Na maioria das vezes era motivo de chacota, piadinhas sem graças e cara feia dos outros.

- Deuses! Pensei que você estivesse em mais um de seus dias de fúria, e não iria pra escola. – Gritou Julie abrindo a porta do quarto.

- Ah, Julie, por favor. Depois da noite de ontem, eu tenho vontade de espancar você! – Disse Wendy, com um tom de desânimo.

- Nem vem amiga. Você curtiu aquela festa mais do que qualquer pessoa. – Disse Julie dando uma grande gargalhada. - Agora chega de conversa e vamos, porque provavelmente a professora Mara vai dar seu discurso super emocionante, por conta do atraso.

  Julie era branca dos cabelos longos e pretos. Seus traços eram finos, seus olhos pretos como jabuticabas, sua estatura era média, e era magra, muito magra. Tinha um ar de “despreocupação com a vida” e reclamava de cinco em cinco minutos. Julie fumava, e na maioria das vezes levava seus cigarros em qualquer bolsa que carregasse. Vestia roupas pretas em quase todas as situações, e suas maquiagens eram sempre carregadas e fortes, acompanhadas de batons vermelhos de diversos tons. Por isso era confundida com uma gótica.  Este era um dos fatos pela qual Julie e Wendy eram parecidas. Curtiam um bom roque e amavam cores escuras. Porém, apesar de tudo isso apresentava incontáveis diferenças em questão de aparência. Wendy era mulata clara e magra. Sua pele era bonita ao sol e ficava com a leve cor de doce de leite. Seus cabelos eram medianos e seus olhos cor de mel, como os da mãe. Adorava seus olhos. Era a única parte de seu corpo que a agradava. Wendy tinha um grave problema com auto-estima e não via o quanto era bonita. Gostava de tudo o que era relacionado á romances. Diferente de Julie, que sempre foi a favor da razão. Sempre foi muito fria e calculista com tudo o que fosse relacionado a sentimentos.
Era paquerada por todos os caras do colégio e despertava ódio e indignação neles, pelo fato de ser lésbica. Um dos motivos pelo qual todas as pessoas ás zoavam no colégio, achando que as duas eram um casal. O que esqueciam era que: Wendy não era lésbica. Ela sempre deixava claro, mas sebe como é, quanto mais motivos as pessoas tiverem para comentar, melhor.
Chegando ao colégio, Wendy se deparou com o pátio extremamente vazio. Sem sinal de otários, nerds ou aquelas garotas sem graças do grupo de dança, querendo exibir o corpo. Sabiam que tudo o que restava á elas, era entrar logo na sala e agüentar as piadinhas e a bronca da professora. Entraram na sala, pediram licença e já se deparamos com o olhar curto e grosso da professora Mara. “Aquela velha não tem jeito mesmo!”, pensou Wendy.

- Bom, eu espero que vocês tenham um motivo convincente que explique o atraso de 25 minutos, não é mesmo garotas? – Perguntou Mara, limpando o pó de giz sobre a roupa.

- Desculpe professora... Apenas tivemos um contratempo, que não vem ao caso agora. – Respondeu Wendy sentando-se lentamente na cadeira.

Todos começaram a rir e Wendy corou a se ver naquela situação.

- Vou continuar com a minha aula. Se estiverem interessadas, perguntem aos colegas o que eu estava comentando. – Disse a professora virando-se para o quadro negro.

- Então... Vocês estão interessadas no que a velha maluca estava falando? – Pergunto Richard diminuindo a voz, com um tom de sarcasmo.

- Sim, claro. Mas não de você. – Respondeu Wendy.

- Pois bem, irei falar mesmo assim! Ela estava falando que provavelmente vocês estavam tendo “um momento de amor”, e perderam o horário. – Debochou Richard, dando uma gargalhada forçada.

-Oh, muito engraçado de sua parte, Richard. Agora me diz como foi ter perdido o campeonato de segunda divisão do colégio, em? –Pigarreou Julie.

Depois de passar algumas horas no colégio na qual as duas amigas consideravam o pior de todos, elas voltaram para casa. Wendy e Julie caminharam sobre as ruas da Califórnia, falando sobre como foi o dia no colégio e como sempre, não faltaram queixas.

- Ainda bem que este é o ultimo ano que estudaremos... Não agüento mais! – Reclamou Julie

- Para mim mais alguns meses, é uma eternidade, se quer saber.

O celular de Julie tocou. Wendy achava engraçada a forma como ela se animava ao ouvir a musica do The Smiths, uma banda na qual era fã, no som de chamada do seu celular.

- Oi vovó... Pode falar! – Atendeu Julie revirando os olhos.

- Onde você está Julie? Está demorando demais para chegar aqui em casa menina... – Reclamou a Dona Margot, avó de Julie. Dava para ouvir sua voz tremula de preocupação do outro lado da linha.

- Vovó, pelo amor dos anjos! Nós saímos da escola não tem nem 20 minutos. Será que dá pra senhora esperar um pouco? Que saco. – Respondeu Julie desligando o celular em seguida e acelerando os passos.

 Julie morava com sua Avó, pois seus pais eram separados. Cada um morava em um lugar. Sua mãe morava em Veneza e seu pai em um bairro desconhecido da Califórnia. Julie remoeu tanto a separação dos pais que optou em viver com sua avó, onde achava que teria mais paz e jurava que exerceria o “juízo”. Acontece que o juízo aos olhos de Julie, era totalmente contraditório. Ela sentia-se sozinha em relação aos parentes. Não tinha o apoio da mãe em nada que fazia. Quando estava triste, por exemplo, não tinha o colo materno para ampará-la. Quando tinha dúvida em matemática, não tinha um pai para ensiná-la. O real problema não era a separação dos pais em si, e sim, a forma como eles á tratavam. Como uma nada. Poucas vezes tinha notícias de sua mãe, que com a cara de pau, ligava de vez em quando dizendo ”eu te amo”, perguntava como andava a escola e logo desligava. O que Julie sabia, era que sua mãe havia mais dois filhos pequenos. Frutos de um romance com um homem que conheceu quando se mudou para Veneza. Já seu pai, poucas vezes aparecia para visitar a própria mãe, dona Margot, e saber como andava a filha, Julie. Ela sempre teve em mente que sua bandinha de rock, era mais importante do que a companhia da filha.

- Você desligou o telefone na cara da sua avó? O que você tem na cabeça Julie? – Perguntou Wendy, seguindo-a com os olhos.

- Wendy, como se você não conhecesse minha avó, não é? Ela enche o saco! – Reclamou Julie batendo os pés como uma criança – Quer saber? Não voltarei para casa. Posso... Dormir... Na sua casa?

- Sua avó é um amor de pessoa. O que? Dormir lá em casa? Mas sua avó vai falar um monte! – Wendy arregalou os olhos.

- Mais do que ela já fala? Impossível. Vou para a sua casa sim.

  Chegaram na residência de Wendy e o almoço já estava pronto. Almoçaram, e Julie acabou ligando para a Dona Margot, avisando o seu “paradeiro”. Fizeram os últimos deveres da escola e logo foram deitar em frente à piscina para desfrutar da bela tarde de sexta feira.

- Ás vezes... Sinto pena da sua avó. – Comentou Wendy.

- Por quê? – Perguntou Julie. - Wendy quer saber por que ela fica tanto no meu pé? Vou te contar então: ela acha que eu vou sair por ai, beber igual uma condenada e fumar mais de dez cigarros por dia. E na verdade eu vou fumar apenas oito e ficar em casa o dia inteiro no computador.

-Apenas oito? – Wendy riu - Eu me divirto com as coisas que você fala Julie. A sua avó se preocupa com você. Dê valor á ela. Ela é sempre tão fofa com você e...

- Ok, mas e você, em? – Interrompeu Julie.

- Eu o que? – Wendy virou-se olhando para a amiga, que como sempre, fumava um cigarro extra forte.

- Deveria parar de defender a minha avó e arrumar um namorado. – Disse Julie dando um breve sorriso e soltando a fumaça pela boca.

- Como? Você só pode estar maluca. Aliás, você é maluca, Julie. –Respondeu Wendy, levantando-se da cadeira.

- Não, não estou! Você sempre tão romântica, linda e não arrumou um cara gostoso pra você?

- Não é tão simples assim Julie... Contos de fadas nunca acontecerão comigo, eles não existem. – Comentou Wendy, olhando para baixo.

- Ok, mas seu eu fosse você tirava essa parada de “conto de fadas” da sua cabeça, porque elas não existem mesmo, amiga. Apesar de que isso não é questão de contos de fadas. É questão de você ser feliz.

Wendy assustou-se com as palavras da amiga. Desde pequena, Julie não tinha o costume de falar sobre romances ou coisas do tipo. Ela sempre se preveniu disso, até conhecer Kary, sua namorada, se assumir e esquecer que aquilo a doía mais do que atualmente.

- Está bem... Mas não costumo pensar á respeito disso. Nunca me apaixonei. Mas se isso tiver que acontecer, será mágico, tenho certeza.

- Para de ser boba Wendy! – Disse Julie pausadamente a encarando. - Está bem. Quer saber? É claro que você vai encontrar um cara que vai te amar e te querer para sempre. Eu encontrei a minha girl... – Julie pigarreou, mostrando seus dentes perfeitos.

- Sim, mas são casos totalmente diferentes!– Wendy riu exageradamente.

-Ah, vai cagar! – Julie revirou os olhos apagando o cigarro.

As duas riram juntas e Wendy decidiu que deveria jogar a amiga na piscina depois do que disse. Quando Julie percebeu que ela á empurraria, revidou, fazendo assim com que as duas caíssem juntas, molhando todo o quintal.



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